
MESA DE BAR
Esperar, lenta agonia Segundos, minutos... séculos Tu vens, é o mesmo que não vir Esse olhar sombrio, Virgem Maria Até as estrelas das meninas Ficam tímidas em se mostrar.
Teus passos cambaleantes, teu corpo arredio Teus lábios, tão brilhantes, tremem... será frio? Onde estás?! Sinto-te aqui mas não te sinto Sinto que palpita alguma coisa ruim Ruim é te ver nesse consumisso Consomes minha alma por te ver assim.
Então, levanta, vá embora... Não trazes nada para mim! Nem o riso triste, nem o choro alegre Só essa cena de desespero, que vejo agora Leva a minha tristeza que era alegre, Sem fim...mas, por favor, Minha alma partida deixa que eu carregue.
Levanta e vai? Ora, o que foi que fiz? Um último olhar, um beijo jogado Da palma da mão, Voa suavemente, toca meu rosto, Meus olhos, minha boca... Agora é tarde, já fiz o que fiz Não alcançarei mais teu coração.
Olhar a porta, a rua..., nada Na esperança vã de vê-la aparecer Com seu sorriso brilhante, Cintilante, olhar radiante.
Brilhante, só o copo com a alma gelada Tão gelada que chega a estremecer... Cintilante em meus lábios Ela é o meu instante.
(Scorpion) 07/1999
Escrito por Scorpion Free Man às 21h34
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Sentado em minha cadeira, com apoio de braço apropriado para escrever, fixei-me na última fila da sala, com a intenção de poder observar melhor e ter liberdade para anotações do que ia sendo escrito no quadro.
O professor desfilava o longo arrazoado de informações, e nós, alunos, prestávamos atenção, entre curiosos e sedentos para absorver tudo que nos fosse passado, e que seria usado no próximo exame vestibular, para o qual nos preparávamos.
Éramos, aproximadamente, 150 alunos, espremidos naquela pequena sala, com cadeiras colocadas lado a lado, e, em cada fileira, um degrau as elevava para que a visão de quem estivesse atrás não fosse prejudicada pelo colega da frente.
Na cidade, havia um grande número desses cursinhos de preparação. A procura era intensa, pois os exames eram, na visão dos candidatos, quase que disputados acirradamente, pelo grande número de pretendentes ao pequeno número de vagas oferecidas nas faculdades. Resolvi participar desse curso pela longa ausência que tive dos bancos de escola. Na minha opinião, para disputar uma vaga, não teria a menor chance se não me preparasse adequadamente com os estudos. A grande novidade era essa modalidade intensiva, onde todas as matérias eram apresentadas e, segundo as informações que obtivera, com professores bem preparados, que conheciam os chamados “macetes” dos vestibulares.
Pois aqui estava eu, sentado na última fila, prestando atenção, consciente de que ainda precisava de muito preparo e dedicação se quisesse ter algum sucesso nessa empreitada. Meu objetivo já estava traçado, já sabia que curso iria disputar e, agora, só dependia de mim para alcançar essa meta.
Tinha, ainda, pouco mais de quatro meses para o início dos exames vestibulares e o tempo era implacável. Dividia-o entre os estudos e o trabalho, já que meu curso era noturno para conciliar com o trabalho, na empresa, que eu desempenhava durante o dia.
Ela precisava de mais uma chance na sua vida. Já havia tentado vários vestibulares, sem obter êxito em nenhum deles. Não sabia porque, mas quando freqüentava os cursinhos, parecia que tudo corria bem, entendia todas as matérias apresentadas, estudava com afinco, mas, na hora de prestar os exames, dava um branco inexplicável. E lá se ia mais uma oportunidade de entrar em uma universidade.
Desta vez, seria diferente. Ela prometera a si mesma. Não deixaria que seus temores e anseios sobressaíssem em seu íntimo, prejudicando a sua concentração nas questões das provas. Estava preparada, física e espiritualmente para enfrentar mais este desafio. Queria muito dar uma satisfação aos seus familiares, que apostavam tanto nela. E, além disto, dar essa satisfação a si mesma, já que não encontrava justificativa para sucumbir na hora decisiva.
Matriculou-se num cursinho e se aplicava nos estudos. Neste exato momento, lá estava ela, sentada na fileira do meio da sala, prestando atenção, escrevendo em detalhes tudo o que estava escrito no quadro. E ouvia, atentamente, o que o professor explicava.
Escrito por Scorpion Free Man às 21h33
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Eu já conhecia boa parte dos meus colegas daquela sala de aula. Nos encontrávamos nos intervalos de troca de professores, e, nos juntávamos a vários outros alunos no intervalo maior, para um lanche rápido no bar ao lado do cursinho.
De vez em quando, ao final das aulas, mesmo sendo tarde, voltávamos ainda ao bar, para conversas descontraídas e ficávamos ainda pelo tempo que cada um se dispusesse, antes de voltar para casa. Quase todos os dias eram assim, principalmente nas sextas-feiras, onde alongávamos a permanência, aproveitando para marcarmos algum encontro para o fim de semana.
Sentado na última fila, há muito tempo observava aquela garota, ali concentrada e atenta, na fila do meio da sala. Ela me chamara à atenção, pois sempre a vira no bar, na hora do lanche, encostada no canto do balcão a tomar um refrigerante, porém sempre só. Não era bonita, dessas belezas de fazerem os homens virarem a cabeça quando passasse, mas, para mim, ela tinha algo que me atraía, e eu não sabia explicar o quê. Estranhava que ela estivesse sempre só, não se enturmava, estava sempre na dela, quietinha e absorta com seus pensamentos.
******
Desde o primeiro dia do cursinho, ela não sabia explicar o que sentira. O professor de português, com sua fala fluente e correta, causara-lhe um arrepio e ela se descobrira apaixonada. Isto mexia com seus sentimentos, e mesmo querendo estar totalmente concentrada nos estudos, quando chegava a vez da matéria dele, ela se descontrolava. Seus olhos brilhavam e suas mãos suavam.
Quando chegava o intervalo do lanche, ela se dirigia ao bar e ficava no canto do balcão, tomando seu refrigerante e observando o professor, que alheio aos pensamentos dela, integrava-se ao grupo de alunos que ali estavam. O olhava com admiração e encanto, apaixonada e, ele, nem imaginava isso. Ela, em verdade, ficava pensando numa forma de aproximar-se do grupo para poder, também, ficar perto do homem que ela passou a amar.
********
Eu estava animado. Para o sábado, marcamos de ir a uma danceteria e os preparativos foram tratados no bar, onde nos reuníamos ao redor da grande mesa que era formada todas as noites, já que juntávamos várias mesinhas para acomodar o nosso grupo.
Nessas ocasiões, sempre tínhamos a companhia de um ou mais professores. Aproveitávamos, espertamente, para tirar algumas dúvidas que ficavam dos estudos da sala de aula.
Aquele sábado seria especial. O curso iria oferecer uma oficina de estudos, onde a temática seriam as matérias de estudos, em apresentações de professores e alunos. Depois, para finalizar, teríamos uma banda de rock, formada por um dos alunos, para podermos nos divertir dançando. Como não era um local apropriado para este tipo de evento, sabíamos que terminaria cedo, este o motivo porque marcamos a danceteria para encerrar a noite.
Chegado o dia, ou melhor, a noite das apresentações, o local estava apinhado. Reuniram-se quase todos os turnos de alunos e o tempo passou rapidamente e, como prevíramos, a banda encerrou sua participação mais cedo do que esperávamos. Na calçada, esperando, juntamente com outros colegas, a turma se reunir para seguirmos até a danceteria, vi, ao longe, conversando, a garota do bar que eu classificara como solitária. Aproximei-me e perguntei a ela se iria nos acompanhar.
Respondeu-me que precisava voltar e que não tinha nada programado. Não avisara nada em casa, portanto, pensava não ser possível apesar de que gostaria de ir.Perguntou-me quem iria e ao relatar vários nomes, mencionando alguns professores na lista, não percebi o motivo, porém vi seus olhos brilharem e seu rosto se iluminar.
Escrito por Scorpion Free Man às 21h32
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A seu pedido, emprestei-lhe o telefone e ela, imediatamente, ligou para sua casa, avisando alguém do outro lado da linha, sua pretensão de não voltar cedo, confirmando sua ida a danceteria junto com a turma.
Confesso que fiquei feliz pela sua decisão, tão pronta e tão decidida. Eu não estava me relacionando com nenhuma garota, atualmente. Por motivos de desentendimentos, meu namoro havia terminado ou dado um tempo, fazia pouco mais de um mês. E eu não queria pensar nisto naquele momento.
Ficamos conversando amenidades enquanto a espera se prolongava, e ao perguntar seu nome quase tive um choque. Ela tinha o mesmo nome da minha ex -se já dava para ser assim chamada - namorada. Meu choque nem foi pela coincidência nos nomes, mas sim, porque neste sábado era o aniversário da outra, ou ex, como queiram.
É claro que não mencionei este fato para a garota que estava ali à minha frente, mas fiquei deveras impressionado. Se fosse uma brincadeira do destino, iria descobrir até onde isso me levaria. Nós sentimos atração e afinidades mútuas, instantaneamente, enquanto conversávamos. Fomos para a danceteria, o grupo reunido, mais eu, a garota, e três professores; o de matemática, o de química e o de português.
A festa foi, para mim, tudo que eu precisava. Havia percebido, nessa garota, tantas coisas em comum que terminamos a noite, muito mais próximos um do outro, do que eu poderia imaginar ou querer.
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Ela foi para casa, na volta da danceteria, parecendo que caminhava nas nuvens. Estava leve, alegre, radiante, e mais apaixonada ainda. A noite fora maravilhosa. Fazia muito tempo que não se divertia tanto. E, ainda para completar, na companhia daquele que estava sendo o objeto do seu amor.
Conhecera, também, uma pessoa muito especial, carinhoso, amigo, divertido. E o engraçado é que, em todo tempo de cursinho, havia notado muito pouco a sua presença. Mas nesta noite, ela descobriu como tinham coisas em comum e que imensa paz e tranqüilidade sentia ao seu lado. Aproximaram-se por acaso, entretanto, parecia-lhe que já o conhecia desde há muito tempo. Não saberia explicar a atração que a fazia ficar tão próxima.
Agora, voltando para casa, só queria ocupar seus pensamentos com o seu amado. Cada vez que ele a olhava, ela sentia um calor imenso a invadir-lhe dos pés à cabeça. Ele sorria-lhe e ela correspondia a cada vez que seus olhares se cruzavam. Mesmo ele estando no lado oposto da mesa onde ela se encontrava, sentia sua presença física a amordaçar-lhe os movimentos. Sentia que sufocava, mas mesmo assim, estava feliz. Ele a notara e lhe dava atenção.
Chegou em casa, tomou uma ducha, deitou e sonhou. Seu semblante, porém, mostrava, claramente, que seus sonhos não eram tão tranqüilizadores. Sua agitação na cama era constante. Acordou, horas depois, cansada e com o corpo dolorido. Ainda precisava estudar, não podia perder o rumo dos seus objetivos. Faltava pouco tempo para o vestibular e desta vez prometera a si mesma que conquistaria a vaga que, em sua luta particular, buscava alcançar.
**********
Apesar de ter aumentado minha carga horária de estudos e de trabalho, eu me encontrava tranqüilo e feliz. Descobrira, em pouco tempo, que a felicidade não é tão exigente, nós é que somos para obtê-la.
Meu relacionamento com a garota cada vez nos aproximava mais. Eu a amava, protegia, ajudava, aconselhava. Trocávamos confidências quando nos encontrávamos na entrada do prédio do cursinho. Nos intervalos ficávamos sempre juntos. Éramos, para os colegas, namorados; para nós, apenas “ficantes”. No bar éramos companheiros e sua integração foi imediata. A garota aderira ao grupo sempre que este se reunia, juntamente com os professores. Quando eu não estava na casa dela, aos fins-de-semana, para estudar e fazer-lhe companhia, íamos ao curso para aulas extras e, depois, o bar era nosso destino certo, até as horas terem passado sem nos darmos conta.
Escrito por Scorpion Free Man às 21h32
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Nessas ocasiões, e por conveniência, ela pegava carona com nosso professor de português, já que ela morava no caminho que ele teria que percorrer para ir embora, também.
O ano estava chegando ao fim, e o dia das provas se aproximava, criando, em nós, expectativas do desafio que nos esperava. Em minha opinião, eu estava bem preparado. Estudara com afinco e dedicação, buscando todas as fontes de informações necessárias para não ter surpresa nos exames. Até as aulas de última hora, em horários alternativos, freqüentei, aproveitando as dicas que eram passadas pelos professores.
Fazia tudo isso, alimentado pela alegria de ter conhecido essa garota, o que me dava motivação para buscar meus objetivos que já eram sólidos. Sua presença na minha vida, deu-me um alento não compreendido. Nossa afinidade era um fato incontestável. Sabíamos, de antemão, sem dizer palavras, o que um queria do outro. Trocávamos impressões sem quase precisar dizer muito.Nos entendíamos pelo olhar. Só não compreendia, algumas vezes quando a olhava, vislumbrar no fundo dos seus olhos, uma melancolia imperceptível a mostrar uma tristeza interior.
Quando perguntava o que estava se passando com ela, respondia que eu estava vendo “fantasmas”, que era feliz e estava tudo bem. Dizia-me que eram preocupações com os exames vestibulares que se aproximavam. Rapidamente, assim como observava, eu esquecia do episódio, acariciava seus cabelos e, juntamente com um abraço, sempre lhe dava um beijo.
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O semestre passou depressa. Os exames vestibulares já haviam passado e ela tinha se inscrito em várias casas de ensino que aplicavam essas provas. Em alguma delas esperava ter a chance de ingressar. Seu esforço não poderia ser em vão desta vez.
De família com pais separados, era a caçula dos filhos. Tinha uma irmã e um irmão nascidos antes dela. Mesmo sendo a mais jovem, adquirira, desde cedo uma independência dos seus atos.
E, por essa independência, é que resolvera viajar para uma ilha para aproveitar suas praias belíssimas. Precisava dar um descanso à sua mente que, atualmente, estava fervilhando. Resolvera fazer esse passeio, a partir de um convite que recebera. Jamais imaginaria que os acontecimentos teriam tomado o rumo que tomaram. Foi muito rápido e fácil tudo o que lhe aconteceu.Havia se apaixonado pelo professor de português desde o primeiro dia de aula.
Sabia que a aproximação não se daria como num passe de mágica. Afinal, ela não era daquelas garotas de chamar atenção. Porém, a saída à danceteria e depois os encontros no bar, tiveram papel preponderante no desfecho desse contratempo. Seus olhares ficaram mais acentuados e a atração exerceu sobre eles, uma necessidade premente de um encontro a sós.
A oportunidade surgiu a partir da primeira carona que ela aceitou para ir embora para casa, na saída do bar.Conversaram durante o caminho, sabendo, um do outro, intimamente, quais seus reais motivos de ali estarem juntos. Antes de deixá-la em casa, trocaram um longo e demorado beijo, afogueados pelo desejo e pela paixão. Por isso que, quando ele, a pretexto de ir resolver um contrato de trabalho, convidou-a a viajar para a ilha, ela não pensou duas vezes. Aceitou imediatamente.
Sua consciência, porém, era uma acusadora implacável. Não estava sabendo como conciliar esta paixão incontrolável com o amor que dedicava àquele que lhe era tão especial. Juntos, estiveram sempre nos grupos de estudos, nas reuniões do bar após as aulas, nos passeios de mãos dadas pelas calçadas do seu bairro. Fizeram confidências, tiveram momentos de carinhos e carícias, conheceram-se na intimidade do seu intenso, porém, doce amor.
Escrito por Scorpion Free Man às 21h32
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Nas horas que ela estava apreensiva, ele era atencioso e dedicado, insuflando palavras encorajadoras em seus ouvidos, que soavam como música suave a lhe trazer uma imensa paz e tranqüilidade. Confiava nele, queria, precisava ser diferente com ele. O que a incomodava era essa sensação de haver algo além da sua imaginação ou compreensão. Não saberia dizer o que era. Só sabia e isso era uma certeza; não estava nada feliz com isso. Alguma coisa deveria ser feita, só não conseguia vislumbrar o quê.
Os exames dos vestibulares já haviam passado e ela esperava que ele tivesse sido aprovado para o curso que escolhera. Ele conseguiria, ela tinha certeza; era estudioso e inteligente. Quanto a ela mesma, nem a tinha tanto assim. Queria que desta vez fosse diferente, havia estudado bastante, mesmo com os atuais acontecimentos que acabaram desviando um pouco sua concentração.
Inscrevera-se em várias faculdades, e, também acontecera em algumas provas dar aquele branco, na hora que mais precisava da memória em alta. Confiava. E, aguardava uma boa notícia.
Marcara com seu namorado – ou seria “ficante?” – encontrarem-se na outra semana para, juntos, verificarem as listas dos aprovados. O bar de costume seria seu local de encontro. Dali a pouco iria viajar para a ilha, mas estaria de volta para o encontro em tempo hábil. Dissera a ele que visitaria uma tia no interior mas voltaria para estarem juntos procurando seus nomes.
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O fim de semana passou arrastando. O relógio parecia que não andava, seus ponteiros, tinha essa impressão, não se moviam, ou eram tão vagarosos que tive a sensação de perda da noção do tempo.
Sabia o que era isso. Saudade. Sim, sentia uma dolorida saudade da garota que transformara minha vida. Eu a amava e sua ausência me causava esse pânico de “falta alguma coisa” em mim. Acostumei ir à sua casa todos os finais de semana, e neste, sem nada para fazer, perdi um pouco o rumo de como preencher o vazio da sua presença e companhia.
Ela viajara para a casa de uma tia e, após esses dias de afastamento, estaria voltando logo mais para juntos vermos a lista de aprovados na sede do cursinho que freqüentáramos por um semestre inteiro.
À tarde me dirigi ao bar e, com o calor que fazia, para descontrair e amenizar minha ansiedade pedi, ao garçom, uma bebida bem gelada.Enquanto, sentado, absorvia a cerveja que havia sido servida, relembrava nossos momentos, retrocedendo no tempo, desde o primeiro encontro.
Muita coisa mudara em nossas vidas, já a conhecia bastante para assim afirmar. Ela estava mais confiante, eu estava mais centrado nos meus objetivos, sempre impulsionado pela sua presença e apoio. Hoje, dependendo dos resultados das nossas provas, da minha, principalmente, estava decidido a formalizar alguma coisa mais séria sobre nosso relacionamento.
E assim pensando, as horas foram passando, tranqüilas e serenas. Chegara cedo, ainda tinha algum tempo para esperar. Só queria encontrá-la, vê-la, abraçá-la. Olhar em seus olhos e dizer-lhe o tamanho da minha saudade.
Olhei para a porta do bar e a vi chegando. Linda..., maravilhosa..., quase um anjo.
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Escrito por Scorpion Free Man às 21h31
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Estava quase chegando de volta. O fim de semana, na ilha, tinha sido um sonho para ela. Descansara, amara, passeara. Sua paixão desenfreada se aplacou assim que seus corpos acabaram de se encontrar. Quando deu por si, uma tristeza imensa invadiu seu coração. Teve a sensação de que suas energias diminuíram, que algo muito pessoal estava-lhe sendo retirado do íntimo do seu ser.
Pensou, imediatamente, na pessoa que deixara para trás e sentiu o remorso apunhalando sua consciência por tê-lo enganado com uma mentira que considerava, a seu juízo, infame demais para conviver. Ele não merecia, jamais, que ela tivesse agido da maneira que agiu.
Resolveu que este caso não seria levado adiante, para que um possível desdobramento, não afastasse de si, aquele que ela realmente amava com intensidade, em todos os sentidos que o amor pudesse proporcionar.
Falou isso ao seu professor, com uma calma que ela não saberia descrever de onde buscara. E, como já estavam na ilha, de comum acordo, aproveitaram os dias restantes para apreciarem as maravilhas que a natureza oferecia. Como bons e, se alguém percebesse, velhos amigos.
O carro corria velozmente pelo asfalto, pelo pedido que ela fizera, para que conseguisse chegar a tempo de cumprir o horário marcado para o encontro.
Cada um com seus pensamentos, dentro daquele carro pairava um ar insustentável e sufocante. Ela queria chegar logo, nada daquilo lhe fazia mais sentido.
À frente, em direção contrária, um caminhão avançou para ultrapassar outro veículo, tomando a pista incompatível à sua direção. O ranger de freios foi horripilante e assustador. O choque entre os vários veículos foi inevitável. Não havia meios de contornar, dadas as circunstâncias. O caos e a gritaria se instalaram de pronto.
Logo depois, equipes de resgate retiravam os corpos feridos dos carros envolvidos e, rapidamente, ambulâncias saíam em disparada, com suas sirenas silvando pelo ar, como que a pedir à população que se consternassem e reverenciassem os sofridos passageiros que ela transportava.
**************
Ela chegou, radiante e bela, e parou na frente da mesa em que eu a estava esperando. Levantei-me e, a um gesto de beijá-la, com as mãos a minha frente, fez-me sinal para que me sentasse novamente.
Escrito por Scorpion Free Man às 21h31
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Notei que, apesar de toda sua beleza e juventude, de seus olhos transparecia uma tristeza profunda e comovedora. Sentou-se e eu, respeitosamente, acatei seu silêncio a olhar-me acolhedor e cativante.
Começou a falar, suavemente, pedindo-me para escutá-la sem emitir nenhum comentário até que tivesse terminado. Contou-me, em todos os pormenores, tudo que havia acontecido desde que a conhecera. Falou-me do amor incomensurável que nutria por mim, das suas culpas, dos seus remorsos, das alegrias, das conquistas e, principalmente, do professor e do fim de semana. Falou-me da sua decisão de ficar comigo para sempre, para recuperar, em sua consciência o grande mal que me havia causado.
Lívido, senti-me ferido no âmago dos meus sentimentos. Minha cabeça girava e eu me senti perdido num redemoinho de emoções contraditórias. Olhava-a mas não a via.
Amava-a, sabia disso como ninguém, queria tocá-la, abraçá-la, beijá-la, confortá-la, porém meus sentidos não obedeciam ao comando do meu cérebro. Não lembro o que lhe falei, ela levantou-se, calma e luminosa, e se dirigindo para a porta, jogou-me um beijo com a palma das mãos, e num sopro, esse beijo roçou-me os lábios. Quando percebi, ela não estava mais, nem no bar, nem na porta.
O garçom, notando minha palidez cadavérica, segundo suas palavras, perguntou-me se eu estava bem. Sem saber o que tinha acontecido e lembrando que sentira uma vertigem repentina respondi-lhe que sim, levantei-me e paguei a conta.
Olhando o relógio, vi que a tarde já avançava e atribuindo o atraso do encontro a algum contratempo de viagem, dirigi-me à sede do curso para não perder a verificação da lista dos aprovados. Minha alegria foi indescritível ao constatar meu nome grifado naquele mural. Conseguira, afinal. Percorrendo a outra lista meu sorriso se alargou, ela também conquistara seu espaço, depois de tanta luta e muitas tentativas.
Assim que ela me ligasse, eu a buscaria para que pudéssemos comemorar este momento especial das nossas vidas. Ela merecia mais do que eu. E, nós, juntos, construiríamos nossa felicidade.
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A movimentação de pessoas, policiais, equipes de socorro e resgate era intensa, o caos estava estabelecido. A fila enorme de carros aguardando a liberação da pista, mostrava, claramente a dimensão da imprudência e da desatenção.
Os veículos de comunicação já estavam divulgando nos principais noticiários aquele que classificaram de acidente de proporções trágicas e lamentáveis. As pessoas que sabiam de familiares que viajaram no fim-de-semana e que aquela hora estavam voltando da ilha ou cidades próximas, usavam de todos os meios disponíveis para obterem notícias que as acalmassem da expectativa apreensiva. Outros, apenas acompanhavam as notícias e comentavam, entre si, dos perigos que rondavam o trânsito e aquela época do ano, em particular.
Na cidade, antes de chegar ao hospital, uma ambulância calava sua sirene estridente. Se fosse possível, seu som seria apenas um lamento. Era, naquele momento, um veículo comum a cruzar as ruas movimentadas.
Escrito por Scorpion Free Man às 21h31
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EU TE VI!
Você esteve por aqui, eu senti Teu perfume no ar. Ou será que só pressenti, Teu vulto vendo passar?
Ah! Quando penso, cansado De tanto andar, vagueando... Voltava e ficava ao teu lado Em teu colo repousando.
Tuas mãos macias de seda Acariciavam meu rosto E agora nem tem quem conceda De carícias ter um gosto.
Mas, eu te vi, juro que sim Meu coração não me engana... Este cheiro de flor de jasmim Ficou no quarto e na cama.
Amor que a tudo aceita Até a distância, compreende Pois, quem ama, não rejeita Não cobra, só ama, não prende.
(Scorpion) 08/2005
Seu dia tinha sido de movimento intenso. Estava exausto, porém, ir para casa ainda não lhe parecia uma decisão satisfatória.
Na saída do prédio, olhou para o céu, enegrecido pela noite escura como breu, e viu, dançando num ritmo balançante, uma névoa vaporosa da garoa fina que caía, mansamente. Parecia um véu solto ao vento, com furinhos que brilhavam conforme passavam pela lâmpada que iluminava, fortemente, o pátio de estacionamento.
Saiu caminhando devagar, protegido pelo grosso capote que vestia, mesmo que sua face ficasse exposta àquela garoa que, aos poucos, faziam-lhe escorrer alguns filetes dos pingos aglomerados em seus cabelos. Ele não prestava atenção e isso, tampouco, o incomodava.Seus pensamentos estavam em torvelinho. Caminhava e refletia o porque de sua indecisão de ir para casa, abrigar-se da chuva, e repousar o corpo e a mente do dia estafante que tivera.
Esperava-lhe uma esposa, jovem como ele, bonita, inteligente, de família tradicional. E acima de tudo, esperava-lhe, também, uma linda filha de, aproximadamente, 5 anos, à qual ele amava muito.
Escrito por Scorpion Free Man às 12h54
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Voltemos uma semana deste dia, ou melhor, desta noite.
Nesta noite haveria uma recepção na residência de um dos expoentes da comunidade daquela cidade. As pessoas de projeção foram convidadas e este, era um tipo de festa que ninguém gostaria de perder. Afinal, era a festa do prefeito e lá se reuniria a nata da sociedade e, todos, invariavelmente, queriam sair nas colunas sociais.
O prefeito da cidade era, também, seu cunhado, irmão da sua esposa. Ele próprio não gostava desses eventos, onde, a seu juízo, as pessoas buscavam apenas projeção social, aproximando-se daqueles a quem dirigiam seus interesses mais imediatos. Achava que, na maioria dos casos, a falsidade se fazia presente e, resumindo, ninguém era amigo ao qual pudesse trocar confidências e manter um relacionamento aberto e fraterno.
Dissera exatamente isso à sua esposa, reforçando aos seus argumentos os motivos os quais não queria se fazer presente.Preferia ficar em seu trabalho, onde, pela profissão que escolhera, aproximava-se das pessoas, quase todas, desconhecidas e libertas dos preconceitos de classes sociais ou tamanhos da conta bancária.
Era cirurgião médico de um grande hospital, e, com seu trabalho visando o bem estar do ser humano, conquistava entre seus pacientes a simpatia e a consideração que não conseguia em seu meio social. Para ele um paciente não era apenas um número, e, sim, uma pessoa que merecia todo o carinho naquelas horas de carência e sofrimento. Isso o satisfazia, apesar do cansaço que sentia, sempre, quando acabava seu turno.
Por ter essa visão da sua vida e do meio social em que vivia, falara para a esposa sua desistência de comparecer àquela recepção. Discutiram. Ela adjetivou-o de insensível e desinteressado, dizendo-lhe que ele, com essa decisão, comprovava que ela não lhe fazia a menor diferença. Mesmo com seus argumentos contrários, não conseguiram acalmar seus ânimos e assim, contrariado ele foi trabalhar novamente, em mais um turno junto aos seus pacientes.
Mais um dia de trabalho acabado. Saiu à porta de entrada do prédio, olhou o relógio e concluiu que era cedo para chegar em casa. Afinal, não tinha ninguém hoje o esperando, e mesmo que tivesse, estava contrariado, ainda, pela discussão que se instalara pela manhã.
Saiu caminhando pela calçada, vagarosamente, olhando, de vez em quando, para as vitrines das lojas com as luzes acesas e os produtos bem dispostos, formando um atrativo visual para captar clientes em potencial.
Caminhava assim, desassossegado, quando viu, dentro de um bar, uma mulher sentada numa das mesas, com uma taça de um aperitivo, que ela sorvia devagar e, vez por outra, mexia com uma espécie de canudinho, olhando, absorta, a dança do líquido misturado ao gelo. Era uma bela mulher, jovem, elegantemente vestida, sentada quase de lado, com as pernas bem torneadas e cruzadas, jogadas dolentes para trás e embaixo da cadeira.
Resolveu entrar. Um aperitivo lhe faria bem. Seus olhares se cruzaram e uma faísca, invisível e imperceptível, percorreu a distância que os separava, acendendo, nele, um vulcão há muito tempo adormecido.
Aproximou-se e pedindo licença, sentou-se na mesma mesa. Iniciaram uma longa e quase interminável troca de impressões, comentários, confidências, risos, reclamações das suas vidas. Falaram do ontem, do hoje e do amanhã, como se fossem velhos conhecidos que ali haviam parado para um último aperitivo do dia, estacionados para um momento de descontração.
Saíram juntos e ele nem tinha mais olhado o relógio e, a um convite dela, aceitou dar uma chegada em seu apartamento para um último drinque ou quem sabe, um café reconfortante.
Acordou no outro dia, deitado numa cama macia de lençóis leves e coloridos. A seu lado, a mulher dormia profundamente, com o corpo semidespido pelo lençol que havia escorregado.Uma linda mulher, com certeza, e, mais do que isso, uma bela amante. Tomou uma ducha rápida e quando voltou ao quarto ela já estava desperta e preparava-lhe um desjejum.
Ele precisava voltar ao trabalho no hospital e lá, trocaria de roupa, já que mantinha várias peças para algumas necessidades de urgência. E esta era uma delas. Beijou a mulher longa e ternamente e o vulcão rugiu, preste a explodir intenso e furioso, naquele exato momento. Prometeu voltar naquela mesma noite.
Escrito por Scorpion Free Man às 12h53
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No trabalho, não conseguia a concentração necessária para realizar os procedimentos que estavam agendados. Pediu que seu substituto assumisse, alegando uma indisposição qualquer e foi para casa.
À noite, voltou ao apartamento onde passara momentos que, durante todo dia, tornaram-se inesquecíveis. Ao toque da campainha, alguém perguntou ”-quem era?”.
Pedindo a presença daquela mulher para que abrisse a porta, falou que estava levando um pacote a ser entregue à mesma, depois de saber que ela não se encontrava ali. A porta abriu-se, quando ele disse o nome, e uma outra mulher o fez entrar.
Conversaram um pouco e ficou sabendo que seu nome havia sido comentado com carinho por aquela que ele procurara. Ele esperava que a amiga, - pois assim se apresentou – dissesse onde a mulher se encontrava, se iria demorar. Como resposta soube que, pela manhã, ela havia ido ao laboratório buscar um exame que fizera na véspera e que soubera que havia contraído o vírus HIV.
Ele abriu a boca num meio sorriso, não acreditando no que ouviu naquele momento. E assim permaneceu por um longo tempo, olhando fixamente para a amiga que lhe dera a notícia. Quando retomou a consciência, seu mundo desabou.
Passados uma semana e voltando ao início da nossa estória, nos deparamos com ele confuso, indeciso, inseguro, amargurado, cansado e sem vontade nenhuma de voltar para casa. A notícia caíra-lhe como uma bomba em sua vida. Não sabia como enfrentar uma possível transmissão desse vírus que, fatalmente, mudaria toda a sua trajetória existencial.
Ademais, como encarar a esposa, ele que, irrefletidamente, a despeito de todo conhecimento científico e prático das conseqüências do ato que praticara, se colocara como alvo dessa possível tragédia humana?
Era, quando solteiro, considerado, na alta sociedade, um dos melhores partidos para qualquer das pretensas candidatas a formar, com ele, um jovem par de proeminentes qualidades. Sendo jovem, tinha os atributos de beleza que faziam suspirar todas as solteiras de plantão. Além disso, já detinha o diploma de médico e gozava dos privilégios como um conceituado cirurgião do maior hospital da cidade. Seu futuro não tinha limites ainda conhecidos.
Casou-se, enfim, com a mais bela e a mais rica solteira cobiçada. Diga-se a bem da verdade, que não foi movido pelo interesse nesses predicados, mesmo que estes pesassem em seu julgamento, porém apaixonara-se por ela assim que a viu em uma reunião informal, das quais ele tanto detestava. Sempre tivera, por ela, um carinho e amor especial e, resultado disso, nascera-lhes a filha, que hoje contava já cinco anos. Seu mundo era perfeito, nesse particular. Tinham divergências, como todo casal as tem, e, naquela noite, há uma semana atrás, uma dessas divergências fizera-o cometer um ato no qual, agora, arrependia-se amargamente.
Pela primeira vez fora levado pelo desejo, sem pensar, sem resistir, entregando-se, inadvertidamente, numa aventura que, hoje, se apresentava com todas as cores de um quadro de terror.
Pensava consigo enquanto não se decidia o que fazer: ”- O que eu fiz para merecer isso? Sempre procurei pautar minha profissão pelo respeito ao ser humano, independente da sua condição social, cor ou credo. Mantive meus votos de fidelidade até agora, tendo, se for considerado erro, errado apenas uma vez. Preciso ser castigado com tamanha fúria? Deus é tão rigoroso assim, que não consegue aplacar a ofensa que lhe causei, minimizando meu sofrimento? Onde está sua benevolência?”
Escrito por Scorpion Free Man às 12h52
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Com esses pensamentos, e essa nuvem negra pairando acima de sua cabeça, apesar da garoa fina que caía, passou pelo bar, onde uma semana antes começara seu calvário.
Tomou alguns aperitivos e resolveu ir para sua casa. Precisava de um descanso.Aquele dia tinha sido terrível para ele.
Soubera, pelos corredores, que a mulher que, seis meses antes, modificara totalmente sua existência equilibrada, havia deixado este mundo.
Sua internação, em caráter emergencial, fora precedida de uma avassaladora degradação física que ocorrera no seu organismo, motivado pelo ataque do vírus, que até então, desconhecia-se tratamento adequado.
Havia, no hospital, uma ala especialmente preparada para receber esses pacientes, que se encontravam em estágio terminal de vida, mais no intuito de amenizar-lhes os sofrimentos, do que lhes administrar tratamento de recuperação ou extensão de tempo de vida orgânica.
Ele a visitava, periodicamente em seu apartamento, antes da internação. Apesar de não entender como ela o levara a esquecer todos os cuidados necessários naquela noite, ele não a culpava. Pelo contrário, nutria por ela uma consideração inexplicável. Administrava-lhe o medicamento necessário e cuidava do seu bem-estar, agindo dessa forma, como um verdadeiro médico pessoal, com carinho e atenção desmedidos. Um sentimento, para ele, que ultrapassava toda lógica e racionalidades possíveis de se entender.
Desde o primeiro momento que a conhecera, tinha a impressão de serem velhos conhecidos, que suas vidas, mesmo trilhando caminhos diferentes e distantes, eram simbiônticas em sentimentos e emoções.
Entretanto, durante esse tempo, ele estacionara toda e qualquer providência que resultasse em comprometimento a sua própria vida. Vivia num inferno particular, incapaz de tomar uma atitude que o levasse a encarar seus dilemas objetivamente.
Ainda não dissera nada à esposa, mesmo, que á custa disso, seu relacionamento tenha se deteriorado, pois ele já não fazia mais nenhum esforço para que fosse diferente. Sua indecisão fizera-o mudar completamente. Tornara-se uma pessoa amarga, fria, impassível e desmotivada.
Somente no hospital e com a sua paciente “especial” encontrava-se novamente com o seu eu antigo. Fora desse ambiente, transformava-se completamente. Sabia que precisava destruir as barreiras que levantara. E para isso, teria que tomar a resolução de fazer um exame específico para saber se estava, ou não, contaminado.
Adiara tanto quanto pode e, um dia antes da morte da mulher, ele resolveu fazer o teste. Agora que ela não estava mais ali para compartilharem o carinho que um dispensava ao outro, um imenso vazio tomou conta do seu coração.
Saiu pelo corredor e ao passar por um dos enfermeiros que ali trabalhavam, este o comunicou que ele deveria passar no laboratório para saber o resultado do exame que fizera.
Escrito por Scorpion Free Man às 12h52
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VARÃO DA MADRUGADA
Ouço passos pela rua Alguém começa a cantar Na espreita da madrugada Espero ela chegar.
Uma cantiga, suave... Varando a escuridão Toca, fundo, no meu peito... Agita meu coração.
Viro, de um lado pra outro... E o sono, teima em não vir. Essa espera consome Minhas horas de dormir.
Em notas, soltas ao vento... A continuada cantiga Descompassada, parece... Serenata à antiga.
Prendendo uma flor de mato Cabelos balançam, ondulados. Perfume invade o quarto Abro meus olhos, cansados.
O que vejo me comove Nos lábios, sorriso, radiante. Com seus braços me envolve Na boca, um beijo picante.
O amor se dá, loucamente... O cansaço nos domina Dormimos, num longo abraço... Quais bêbados na cantina.
(Scorpion) 04/2000
Escrito por Scorpion Free Man às 12h37
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Pois “Varão da Madrugada” nos remete àquelas estórias que jamais pensamos acontecer na vida real.
Estava numa cidadezinha do interior, aonde viera fazer algumas pesquisas de mercado para a empresa, na qual era contratado para este tipo de trabalho. Ele gostava disso, porque lhe dava oportunidade de sair, conhecer outras pessoas, fazer contatos novos, ver como cada comunidade tinha hábitos diferentes. Para ele era um prazer estudar o perfil dos habitantes e suas inúmeras diversidades. Estudar as pessoas, afinal, fora o caminho que escolhera, e, até então, nunca se arrependera. Viajava bastante, e o dinheiro que ganhava era mais do que suficiente para ele. Já tinha todo o conforto que, um dia, projetara para a sua vida.
Era tarde da noite. O calor estava insuportável. Sem sono e precisando dar uma esticada nos músculos do corpo, resolvera caminhar pelas ruas, sem rumo e sem pressa. Tudo ali era agradável de ver. As pessoas caminhando e conversando animadamente, as crianças correndo, praças de alimentação ainda funcionando, alguns bares, com mesas e cadeiras nas calçadas, para acomodar os que se reuniam para uma bebida gelada ou um bate-papo descontraído.
Do outro lado da calçada tinha um parque, não muito grande, todo ele arborizado, com sinuosas passarelas, onde se podia caminhar ao redor de terrenos gramados e enfeitados com jardins de flores de variedades e tons de cores diversas. Àquela hora da noite a iluminação era difusa, dando um aspecto acolhedor e romântico, propício para os namorados que caminhavam a passos contados.
Chamou-lhe a atenção um aglomerado que se fazia numa das pontas do parque. Não, não era confusão à vista. Os presentes demonstravam, em suas fisionomias que ali a alegria era uma constante. A música que se ouvia era tocada ao vivo, por alguém que manuseava, com maestria, uma acordeona e outro, também, com um violão de toque febril.
Aproximou-se curioso para ver o que chamava a atenção daquele povo que se posicionava tão admirado, quanto surpreendentemente, feliz. Chegando mais perto, pode ver que não era exagero. Um grupo de ciganos, postados num palanque improvisado com tábuas acima do chão, demonstrava suas habilidades musicais.
Com suas roupas coloridas, brincos, pulseiras e lenços na cabeça, tocavam todos os tipos de músicas lembrando sua longínqua Andaluzia. Músicas alegres, vibrantes, suaves, românticas, eles tinham um repertório para qualquer gosto musical.
Enquanto isso, outro grupo de jovens ciganos e ciganas, caminhavam por entre os espectadores, oferecendo seus produtos de artesanatos constando desde panos para utilidades domésticas até panelas e frigideiras, fabricadas com latão e cobre. Algumas jovens, ainda, ofereciam a leitura da sorte através das mãos. "- Por um troquinho!"..., como diziam. E assim, esta mini-festa ao ar livre corria sem nenhum incidente, apenas apreciada pela alegria que proporcionava.
Já fazia algum tempo desde que a última música havia tocado, mas todos, ainda, permaneciam no mesmo lugar. Ele ficou mais curioso. O que estavam esperando, que não saiam dali e iam embora para suas casas?
Não demorou muito mais para saber. A música recomeçou, lenta, dolente, mas de uma sensibilidade que ele não saberia explicar. À medida que ia sendo executada, seus acordes ficavam mais fortes e mais rápidos.
De repente, vindo não sabia de onde, apareceu. De pés descalços ela foi para o centro de onde o grupo tocava, o centro da multidão que gritava e aplaudia. Seus movimentos febris, sensuais, insinuantes paralisaram-no totalmente. Era a mais bela mulher que já vira na sua frente.
Cabelos negros, compridos, com uma pequena flor amarela, habilmente incrustada acima de uma das orelhas, o vestido de seda, comprido e esvoaçante, num colorido que harmonizava, tanto com ela quanto com a música que dançava.À medida que a música ficava mais delirante, mais forte, mais rápida, ela acompanhava com a graça e a agressividade que lhe era peculiar.
Escrito por Scorpion Free Man às 12h36
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Ele, em êxtase nem prestava atenção na música. Aquela cigana hipnotizara-o. Quando deu por si, a música havia terminado e a cigana estava abaixada, olhando fixamente para ele, na posição que, depois percebera, era o “grand finale” daquela apresentação. Seus olhos se encontraram e ele sentiu um estremecimento percorrer-lhe a espinha dorsal, como se tivesse recebido uma rajada de vento gelado. Penetrantes olhos que lhe atravessaram de um lado a outro.
Ela levantou-se e se dirigiu para junto do grupo que já estava se preparando para recolher tudo que haviam trazido, e, naquele momento, antes de desaparecer no meio deles, olhou para ele, mais uma vez.
Sentou-se num banco daquela praça. Perdera o sono completamente e não parava de pensar. Aqueles olhos e, aquela cigana, o enfeitiçaram. Precisava falar com ela, vê-la, nem que fosse uma vez mais. Pela manha ele iria embora, mas não queria ir-se desta maneira. Levantou-se, resoluto e foi, caminhando, até o local, onde "morava" aquele grupo de ciganos. Soubera, por ter perguntado, discretamente, para que direção eles haviam rumado e onde eles estavam acampados.
Chegou, cautelosamente, e, num lugar privilegiado, ficou observando. Ainda tinha movimento por ali, com alguns ciganos, talvez, fazendo os últimos preparativos para irem dormir. Ficou pensando como chegar mais perto e como descobrir em qual das carroças estava aquela que o fizera ir até ali. E, se a visse ou a encontrasse, o que faria? Nem ele saberia dizer. Viera por impulso, por uma força irresistível, sem nenhuma programação, quanto mais do que dizer.
Quando percebeu, ao seu encontro dirigia-se um cigano com cara de poucos amigos e, ainda para piorar, com uma adaga presa à cintura.Abaixou-se atrás de uns arbustos, rezando, baixinho, para que não houvesse sido descoberto ali espionando. Ouviu, em seguida, uma torneira sendo aberta e o barulho de água enchendo uma vasilha. Olhou, meio assustado e notou que o cigano viera abastecer-se de água bem perto de onde ele havia ficado em sua campana.
Sentiu um alívio, quando o cigano foi embora e continuou ali, sem saber o que fazer. Só sabia que não queria ir embora.
Nem sabia quanto tempo demorara, quando, de repente, viu, descendo de uma das carroças, a cigana, morena dos cabelos negros, a responsável pela loucura que o acometera e o levara até o acampamento. Carregava, em uma das mãos, uma delicada jarra de cor de cobre e se dirigia para a torneira onde ele estava.
Quando ela preparava-se para encher a jarra de água, ele chegou perto dela e ante o seu olhar assustado, impedindo-a de gritar, se assim pretendesse fazer, tapou-lhe a boca com a mão e olhou profundamente dentro dos seus olhos esbugalhados. Retirou a mão, vagarosamente, e sentindo a maciez e a languidez do seu corpo, beijou-a longa e apaixonadamente. Nenhuma resistência, nenhuma agressividade, somente dois corpos, duas mentes, duas bocas, em perfeita sintonia e idênticos desejos.
Depois de passado esse encantamento avassalador e inusitado, a cigana se recompôs e empurrou-o levemente, afastando aquele que lhe roubara um beijo e a vontade. Falando baixo, para não acordar o acampamento todo, disse-lhe que ele era louco de ir até ali atrás dela. Que ele nem imaginava como eram tratados aqueles que tentassem se aproximar de uma cigana, com propósitos abusivos.
Isto não o demoveu, pelo contrário. Falou-lhe que a queria, se apaixonara e precisava ficar com ela naquela noite, principalmente para conversarem a respeito.Ela pensou, argumentou que era impossível, porém, tamanha era a insistência com que ele lhe falava e pedia, que ela, sabendo que também queria o mesmo, prometeu-lhe, ainda, nesta madrugada, procurá-lo onde ele estava instalado. Deu o endereço e ela e, a cigana, asseverando-lhe que sabia onde ficava, afastou-se e voltou para sua carroça.
A passos lentos, com a mente flutuando, ouvindo sons celestiais tocando em seus ouvidos e, alheio aos movimentos da rua, caminhou sem sentir nem perceber por onde andava. Voltou para o seu hotel e para seu quarto. Deitou-se e ficou, inerte, olhando o teto.
Escrito por Scorpion Free Man às 12h36
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